A Guerra de Canudos não acabou

Não, não estamos nos referindo ao movimento popular liderado por Antônio Conselheiro, magistralmente retratado na obra de Euclides da Cunha1. Apesar do nome engraçado, o problema é sério.

Você costuma usar canudos com que frequência? Você sabia que diariamente são produzidos 500 milhões de canudos apenas nos Estados Unidos? Sabia que essa quantidade é o suficiente para preencher mais de 127 ônibus escolares?2 Apesar de isso não ser debatido no nosso cotidiano, é uma questão muito importante para a natureza e para nós, que fazemos parte dela e somos afetados pelos impactos que causamos.

Em um estudo publicado pela American Chemistry Society, Chen e Patel (2011) foi estimado que no período entre 2010 e 2015 seriam produzidas mais de 300 milhões de toneladas de plástico, resultando em centenas de milhões de toneladas em emissão de gás carbônico, além dos riscos para a saúde pública derivada de outros tipos de emissões3.

Os canudos que utilizamos no dia a dia são feitos de plástico, material criado pelo ser humano e que a natureza não consegue degradar completamente. Apesar de muitos falarem que o plástico se decompõe em aproximadamente 400 anos, isso não é completamente verdade, pois a natureza não consegue decompor o plástico. Com o tempo, o plástico se degrada em um tipo de plástico muito pequeno, invisível a olho nu, chamado de microplástico (FIGURA 01). Esse microplástico é o grande vilão da história, pois ele não é degradado pela natureza e fica existindo para sempre no meio ambiente dessa forma.

Figura 01. Microplásticos de produtos cosméticos vistos sob microscópio. Fonte: Dr. Mary Sewell/University of Auckland.

Estamos em uma época que se consome e se descarta plástico em segundos,  concomitante a isso temos o fato de as partículas de plástico se tornarem “invisíveis” aos nossos olhos. Assim, perdemos o controle de verificar de forma rápida e simples onde estão estas partículas no nosso dia a dia. (FIGURA 02).

http://rioonwatch.org.br/?p=27514

Figura 02. Muitos peixes pescados em locais poluídos são comercializados como se fossem peixes adequados ao consumo humano. Fonte: Elisângela Leite/RioOnWatch.

O resultado é que o plástico  e suas substâncias tóxicas estão presente em diversos alimentos que consumimos, como por exemplo as carnes, pois os animais também ingerem acidentalmente plásticos e microplásticos, e seu organismo absorve as substâncias nocivas (FIGURA 03). Os pesquisadores Van Cauwenberghe e Jansen (2013) realizaram um estudo o qual verificou-se a presença de microplásticos em bivalves especificamente criados para consumo humano4. Já foi encontrado plástico até em sal marinho, na China!5

Figura 03. Fragmentos de plástico encontrados no sistema digestivo de um peixe.    Fonte: Algalita Marine Research and Education/CSIROscope.

E você acha que está a salvo porque vive longe do mar ou não consome alimentos do mar? Está enganado(a). Uma pesquisa da OrbMedia analisou garrafas de água mineral de diversas marcas vendidas em nove países (o Brasil entre eles), e encontrou contaminação por plástico em 93% delas6.

Qual é o caminho percorrido por uma garrafa de plástico quando ela é jogada na rua?

O lixo que vai parar no mar tende a se concentrar em ilhas de lixo oceânicas (FIGURA 04). Atualmente existem quatro grandes ilhas no nosso planeta, duas no Oceano Pacífico, e duas no Oceano Atlântico. Recentemente foi divulgado o relatório de uma pesquisa que monitorou a grande ilha de lixo do Pacífico durante um período três anos. Os resultados foram alarmantes: cerca de 80 toneladas de detritos de plástico flutuante de várias formas e tamanhos, totalizando uma área aproximadamente correspondente a três vezes a área da França7.  O problema do plástico é tão imenso que se estima que em 2050 vá existir mais plástico nos oceanos que peixes8.

Figura 04. Resíduos plásticos flutuando na costa de Roatan, em Honduras. Fonte: AFP/Getty Images/Daily Mail.

Voltando aos canudos, eles são responsáveis por diversos problemas, como ingestão acidental por animais, levando a algum tipo de obstrução do seu sistema digestivo e/ou respiratório (FIGURA 05). Um caso que recentemente ficou famoso foi de uma tartaruga marinha encontrada com um objeto obstruindo uma de suas narinas. Quando uma equipe foi retirar, perceberam que se tratava de um canudo, que estava quase que completamente inserido dentro daquela via respiratória superior9 (FIGURA 06). Os canudos também são um plástico problemático porque são relativamente pequenos, que facilmente se perdem dos sacos de lixo e se entremeiam no meio ambiente, muitas vezes sem conseguirmos detectá-los e recuperá-los.

Figura 05. Porcentagem de espécies marinhas no mundo ingerindo ou emaranhadas com plástico. Para as tartarugas marinhas, 86% das espécies possuíam ingestão de plástico e foram encontradas emaranhadas a plásticos. Para aves marinhas, 36% das espécies possuíam ingestão de plástico e 16% foram encontradas emaranhadas a plásticos. Fonte: Hilldale Public Schools/National Geographic Education Blog.

Figura 06. Tartaruga encontrada com um canudo obstruindo sua via respiratória superior esquerda. Fonte: The Last Straw/Evening Standard.

Além dos plásticos conterem toxinas, eles agem como esponjas, acumulando outros componentes que acarretam em diversos prejuízos também para a saúde humana, entre eles: câncer, problemas no sistema imunológico, defeitos de nascença, problemas no desenvolvimento das crianças, puberdade antecipada em garotas, transtorno de déficit de atenção, autismo, obesidade. E a lista segue10.

Por enquanto, ainda não há solução para o plástico que geramos até agora e já estão nos aterros e mares do nosso planeta. Porém, há solução para o plástico que ainda será produzido, comprado e descartado. Como podemos mudar um pouco esse futuro? Devemos seguir a regra dos 3 “R”s: Reduzir, Reutilizar e Reciclar, nessa ordem (FIGURA 07).

Figura 07. Seguir os 3 “R”s (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) é fundamental para a sustentabilidade. Fonte: NY Greens.

O passo mais importante de todos é reduzir o consumo dos plásticos. Após essa etapa, iremos reutilizar aquele plástico até ele não ter mais serventia Após esse passo, é que iremos reciclar. Segundo Maria Lilian Teixeira, diretora presidente da Rede de Catadores(as) de Resíduos Sólidos de Recicláveis do Estado do Ceará, o plástico possui um limite de reciclagem, sendo destinado ao aterro após o fim da sua capacidade de ser reciclado. O problema do aterro, é que o microplástico gerado vai parar no chorume, que é filtrado/tratado e depois é devolvido para o esgoto, ainda contendo os microplásticos11. Dessa forma, todos os plásticos que nós compramos irão um dia para o aterro ou ficarão em lixões irregulares, e irão acabar indo para o mar.

Por isso, a melhor opção para acabar com a poluição por plásticos é praticando a etapa da redução, ou seja, diminuindo a entrada desse tipo de produto na cadeia produtiva12. Com o tempo, o mercado perceberá essa nova exigência dos consumidores, e irá disponibilizar mais produtos sustentáveis, feitos de materiais realmente degradáveis, diminuindo a entrada do plástico no seu ciclo de uso.

No caso dos canudos, a redução no seu uso seria não utilizá-lo quando não for preciso. Caso você precise utilizar canudos, há diversas alternativas: canudos de metal (como aqueles de chimarrão)(FIGURA 08), canudos de vidro (FIGURA 09), canudos de massa (Sim, isso mesmo! Você usa um macarrão daqueles tubulares como um canudo!)(FIGURA 10), e vários outros produtos feito de materiais realmente biodegradáveis que estão entrando agora no mercado e ainda não tem um preço em conta. Os canudos de metal e de vidro podem ser limpos internamente com o auxílio de uma escovinha que pode ser comprada junto com os canudos.

Figura 08: Canudos de metal

Figura 09. Um canudo feito de vidro é uma das alternativas aos canudos de plástico. Fonte: Biome.

Figura 10. Um canudo feito de massa é uma das alternativas aos canudos de plástico. Fonte: Pasta Straw.

Caso você tenha utilizado um canudo de plástico, lave-o e guarde-o na sua bolsa, para reutilizá-lo até onde for possível. Depois disso, o ideal seria reciclá-lo. Porém, como os canudos são plásticos pequenos que facilmente se perdem, sua reciclagem fica dificultada. Logo, falando novamente, o ideal é reduzir seu consumo para evitar os problemas gerados pela sua existência na natureza.

O futuro do planeta está na mudança dos nossos hábitos de consumo. Você já fez sua parte hoje?

“Você se torna eternamente responsável pelo lixo que produz. Quanto mais arte menos lixo…”. Fonte: Rudny Gomes/Arte Voadora

 

 

 

 

Texto escrito por Thaís Abreu e Franz Aguiar

Colaboração: Karina Carvalho, Gabriel Rocha e Marcos

Revisão: Cecília Marques

Membros do Instituto Verdeluz

O Grupo de Estudos e Articulações sobre Resíduos Urbanos (GRU) é um projeto do Verdeluz voltado à problemática dos resíduos sólidos que atua em Educação, Pesquisa e Políticas Públicas. O GRU visa promover uma maior sensibilização da população frente à temática, construir diagnósticos sobre a atual situação dos resíduos sólidos urbanos em praias de Fortaleza, além de incentivar iniciativas que viabilizem a reciclagem e a geração de renda. Dessa maneira, o GRU pretende envolver jovens fortalezenses em atividades que permitam mudar o ambiente em que vivem. Quer saber mais sobre o GRU? Clica aqui 🙂

 

REFERÊNCIAS

1 CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984.

2 Eco-cycle. Be Straw Free Campaign: Frequently Asked Questions. Disponível em: <http://www.ecocycle.org/bestrawfree/faqs>.

3 CHEN, Guo-Qiang; PATEL, Martin K. Plastics derived from biological sources: present and future: a technical and environmental review. Chemical reviews, v. 112, n. 4, p. 2082-2099, 2011. Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/cr200162d>.

4 VAN CAUWENBERGHE, Lisbeth; JANSSEN, Colin R. Microplastics in bivalves cultured for human consumption. Environmental Pollution, v. 193, p. 65-70, 2014. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749114002425>

5 YANG, Dongqi et al. Microplastic pollution in table salts from China. Environmental science & technology, v. 49, n. 22, p. 13622-13627, 2015. Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/acs.est.5b03163>.

6 Revista Galileu. Pesquisa encontra microplástico em 90% das garrafas de água. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/03/pesquisa-encontra-microplastico-em-90-das-garrafas-de-agua.html>.

7 The Ocean Cleanup. The Exponential Increase of the Great Pacific Garbage Patch. Disponível em: <https://www.theoceancleanup.com/updates/the-exponential-increase-of-the-great-pacific-garbage-patch/>.

8 The Guardian. More plastic than fish in the sea by 2050, says Ellen MacArthur. Disponível em: <https://www.theguardian.com/business/2016/jan/19/more-plastic-than-fish-in-the-sea-by-2050-warns-ellen-macarthur>.

9 Plastic Pollution Coalition. The Turtle That Became the Anti-Plastic Straw Poster Child. Disponível em: <http://www.plasticpollutioncoalition.org/pft/2015/10/27/the-turtle-that-became-the-anti-plastic-straw-poster-child>.

10 Plastics in Oceans. Impacts on Humans. Disponível em: < https://blogs.ntu.edu.sg/hp331-2015-14/ impacts/impacts-on-human-health/>.

11 LARES, M.; NCIBI, M. C.; SILLANPÄÄ, M.; SILLANPÄÄ, M. Occurrence, identification and removal of microplastic particles and fibers in conventional activated sludge process and advanced MBR technology. Water research, v. 133, p. 236-246, 2018. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135418300630>.

12 AZIMI JIBRIL, J. D.; SIPAN, I. B.; SAPRI, M.; SHIKA, S. A.; ISA, M.; ABDULLAH, S. 3R s critical success factor in solid waste management system for higher educational institutions. Procedia-Social and Behavioral Sciences, v. 65, p. 626-631, 2012. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1877042812051609>.

 

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